Vagas para trabalhadores acima de 59 anos são as que mais crescem no Brasil


O ano de 2020 promete significativos avanços no mercado de trabalho, principalmente para os profissionais acima de 59 anos, segundo pesquisas. Com a participação da Diretora de Operações da Produtive, Tatiana Lemke, reportagem do Zero Hora mostra esta nova realidade no país.

Aos 55 anos, Carlos Klein navega com tranquilidade por águas dominadas por jovens hiperconectados. E-commerce, startup e serviços digitais são termos que fluem com naturalidade em seu vocabulário — e áreas das quais tira o ganha-pão.  Técnico em eletrônica formado em 1987, ele se orgulha em atuar há 23 anos na mesma empresa em Porto Alegre, onde ascendeu a gerente-geral. Responsável pelo market place (shopping virtual) da Tempo de Casa, que vende aparelhos de limpeza doméstica pela internet, Klein encabeça as mudanças da companhia no oceano de tecnologia.

— Estou sempre lendo, participando de congressos e atento ao que dizem os colegas mais jovens. As novas tecnologias surgem todos os dias e tenho que entender como elas podem nos ajudar a crescer — afirma.

Daqui a três anos, Klein se aposentará por tempo de serviço pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), mas nem pensa em parar. Ele ilustra um movimento que tem avançado no Brasil: a empregabilidade crescente de profissionais mais velhos. É a mão de obra “prateada”, apelido dado por economistas em alusão aos cabelos grisalhos, que encontra mais vagas no país, como verificou o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A ocupação dos brasileiros a partir de 60 anos cresceu 5,4% nos primeiros nove meses de 2019 em relação ao mesmo período do ano anterior, enquanto na faixa de 40 a 59 anos se ampliou em 2,6% e para trabalhadores mais jovens (18 a 24 anos) caiu 1,3%. Conforme a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério da Economia, o público 50+ já responde por 18,3% da força de trabalho formal.

No Rio Grande do Sul, a quantidade de empregados acima dos 50 anos passou de 260,6 mil em 2009 para 418,7 mil em 2018, um salto de 60,6%, de acordo com a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho – antigo Ministério do Trabalho e Emprego. No Brasil, o crescimento foi de 61,6%, com 5,732 milhões de contratos ativos em 2018.

Em um recorte mais restrito, entre os trabalhadores com mais de 65 anos, a ocupação mais do que dobrou: passou de 9.986 empregados em 2009 para 25.773 em 2018 — aumento de 158%, mostra o Ministério da Economia. No país, 332,7 mil “prateados” ainda labutam, um salto de 133% em uma década. No mesmo intervalo, a quantidade de brasileiros com mais de 65 anos subiu 57%.

— Conforme vivem mais, as pessoas têm mais energia para seguir em atividade, até porque sabem que a aposentadoria ficou distante — analisa Tatiana Lemke, diretora de operações da Região Sul da Produtive, que trabalha com recolocação profissional, em referência ao aumento da expectativa de vida da população e à aprovação da Reforma da Previdência.

Vagas pontuais

Apesar do incremento, especialistas verificam que as vagas para este público ainda são pontuais. Estão em cargos gerenciais, onde a experiência é essencial, ou no atendimento ao público em lojas e supermercados, tarefa pouco apetitosa entre os jovens. Os ambientes convidativos costumam ser pequenas e médias empresas, onde os critérios de contratação são mais flexíveis do que nas grandes corporações.

— As grandes empresas ainda são reticentes em chamarem profissionais mais velhos por temerem por sua produtividade ou incapacidade de se manterem atualizados — afirma Glória Yacoub, economista e responsável pela Estagiário Experiente, organização que promove ações para recrutamento de maduros.

Uma pesquisa realizada pela organização verificou que a “linha de corte” das companhias de grande porte do Rio Grande do Sul para contratações fica em 45 anos — ou seja, profissionais acima desta idade dificilmente terão chance de serem contratados.

— O que os gestores alegam é que estes trabalhadores podem ter mais dificuldade para lidarem com novas tecnologias. Mas o que ocorre na prática é que a própria organização deixa de investir no funcionário maduro, o que pode acelerar sua defasagem — explica Glória.

Ganho na diversidade

Este tipo de segregação pode ser um tiro no pé, observa Monica Riffel, fundadora da MaturiLab, consultoria em Recursos Humanos (RH) e serviços para a terceira idade. Abrir mão dos experientes nas companhias significa diminuir a diversidade, esvaziando o fluxo de ideias e a variedade de pontos de vista em uma empresa. Desta forma, corre-se o risco de ignorar um perfil cada vez mais poderoso de consumidor — um estudo da Hype 60+ mostra que os idosos movimentam mais de R$ 1 trilhão ao ano no Brasil.

— O Brasil tem 33 milhões de idosos, número que deve dobrar até 2050, e 60% deles são os provedores financeiros de suas famílias. Se as empresas não tiverem perfis mais próximos a estes consumidores em seus quadros, não conseguirão entendê-los como clientes — afirma Monica, relacionando a idade à mesma lógica que recomenda diversidade de sexo, gênero e raça nas companhias.

Profissionais mais velhos também podem trazer vivência e experiência complementares à vitalidade dos mais jovens, avalia Monica. Mesclar ambos perfis pode ajudar trabalhadores em início de carreira a aprumarem habilidades como comprometimento, empatia, foco e visão estratégica, pilares essenciais no mundo dos negócios.

Esta também é a crença de Arlindo Schunck Filho, 67 anos e proprietário da Tempo de Casa, a firma gerenciada por Carlos. Ele acredita que o perfil mais sereno e comprometido do seu braço-direito é importante para a empresa seguir crescendo e inovando.

— As tecnologias estão sempre mudando, mas isso a gente pode aprender a mexer. A essência do negócio, do atendimento, esta é sempre a mesma e depende dos bons profissionais — prega Arlindo.

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