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A habilidade política vale mais do que bons resultados

Você faz seu marketing pessoal na empresa em que trabalha ou acha que isso é coisa de pessoas que querem se mostrar demais? Em seu novo artigo para o jornal Valor Econômico, Rafael Souto, CEO da Produtive, explica porque a gestão da reputação e habilidades políticas são fundamentais para o desenvolvimento da carreira do profissional.

Não existe desenvolvimento de carreira sem habilidade política e gestão da reputação. Esse é um tema controverso nas organizações e no modelo mental de muitos profissionais.

Não somos ensinados a cuidar desse pilar de carreira e muitas vezes o associamos a comportamentos negativos que nos fazem repelir qualquer ação que possa ter conotação política.

O tom pejorativo de politicagem e ações inescrupulosas fazem com que qualquer esforço para articulação política ou marketing pessoal seja mal visto. É verdade que profissionais desonestos, manipuladores, inescrupulosos, narcisistas e antiéticos são promovidos. Mas, parece existir um muro dividindo pessoas que se consideram honestas e humildes e aquelas que são políticas e que se preocupam com esse tema.

É isso que mostra no estudo global feito com funcionários de diversas organizações e cargos e realizado por Klaus J. Templer,  professor associado de Psicologia Organizacional na Singapore University of Social Sciences. O objetivo do levantamento era descobrir por que muitas pessoas tóxicas progridem na carreira e como conseguem ter sucesso mesmo com comportamentos considerados negativos.

Templer entrevistou 110 funcionários para saber como enxergavam a sua habilidade política no ambiente de trabalho, como percebiam seus colegas e, por fim, questionou os chefes desses funcionários. Em uma etapa complementar procurou saber como era a percepção sobre os resultados objetivos alcançados no trabalho. O professor determinou uma pontuação no fator-H de personalidade, que quando são altas indicam honestidade-humildade; já as baixas são aquelas que definem o núcleo de comportamentos tóxicos no trabalho.

O resultado revelou que os funcionários tóxicos, classificados com alta taxa de habilidade política por seus supervisores, eram mais propensos a ter uma avaliação de desempenho alta. Em outras palavras, embora nem todas as pessoas tóxicas possuam habilidade política, na opinião de seus chefes, as que usam a habilidade política com eficácia são vistas como melhores funcionários. E como todos sabemos, aqueles que são percebidos como os melhores funcionários têm mais chances de serem promovidos.

A pesquisa também concluiu que pessoas com habilidade política elevada tinham uma percepção de resultados maior do que a média. Quando confrontadas com aquelas que tinham alcançado metas similares, mas com pouca habilidade política, mostrou que essas tinham percepção de desempenho inferior.

A síntese da pesquisa de Templer mostra que a habilidade política é fator preponderante no desenvolvimento e na sobrevivência das pessoas nas organizações. Mesmo pessoas tóxicas são promovidas. E, às vezes, são consideradas necessárias por realizarem atividades úteis em algum momento da empresa.

A explicação disso está na essência de nosso funcionamento em grupo. Somos políticos desde o primeiro dia de vida. Tomamos decisões baseadas nos relacionamentos. Negar esse funcionamento é se afastar da nossa natureza.

A habilidade política é definida pela capacidade de estabelecer vínculos, fazer contatos, gerar influência.  Talvez seja injusto e desencorajador para aqueles que trabalham de forma honesta e humilde ver pessoas com alta toxidade serem promovidas. Os tóxicos sempre estarão presentes nas empresas e compõem o mosaico de personalidades no ambiente de trabalho e na sociedade.

O caminho não é abandonar ou repelir o desenvolvimento da habilidade política, mas sim buscar por inspiração nos inúmeros exemplos positivos de profissionais que fazem um bom trabalho e se dedicam na construção de relações. O cuidado com a reputação na empresa é parte da agenda dos indivíduos com maior sucesso profissional. Investir tempo para saber como está a sua imagem na empresa e tomar ações em prol da construção de uma marca positiva são movimentos necessários.

Cada vez mais, as decisões sobre as pessoas e seus movimentos de carreira são tomadas por um grupo de pessoas. Um profissional que cultiva relações terá mais visibilidade interna e, portanto, mais chances de ser incluído em um projeto novo ou ser considerado para uma nova posição. A estratégia de realizar um bom trabalho e esperar reconhecimento trará constante frustração. Pessoas que optam por esse caminho cultivam um permanente sentimento de “carregador de piano”.

O estudo de Templer pode ter um lado sombrio quando analisamos o crescimento dos profissionais tóxicos e destrutivos, mas revela que administrar a carreira exige um cuidado permanente na habilidade política. Embora essa competência seja mais natural para algumas pessoas, pode ser aprendida por outras.

O chamado networking interno é cada vez mais fundamental. Quando usado de forma positiva e saudável, pode impulsionar a carreira e ajudar os negócios da empresa.

 

Como recuperar a reputação após um #NeymarChallenge no trabalho

O meme viralizou assim como pode acontecer com a má reputação de um profissional no ambiente corporativo. Veja o que especialistas no assunto recomendam fazer quando o comportamento não foi dos melhores.

Neymar virou piada por causa de quedas e exageros em campo. No trabalho, os conselhos de especialistas para o craque valem para todos profissionais

São Paulo – O Brasil está fora da Copa, mas o nome de Neymar ainda corre entre os torcedores no mundo todo. Da pior maneira, como a piada do torneio. Se a perda do hexa foi dolorosa para o brasileiro, também selou o destino da imagem do craque.

Nas redes sociais, se propagam imagens e vídeos das quedas de Neymar durante os jogos da seleção, além de paródias em que pessoas, multidões e até bichos de estimação se jogam no chão de maneira dissimulada. A piada que leva o nome do jogador, o #NeymarChallenge, se popularizou entre internautas e marcas mesmo sem a seleção em campo. Fique por dentro: Após marcas zoarem Neymar, mundo se diverte com #NeymarChallenge

Tudo começou no primeiro jogo da Copa, quando o comportamento do brasileiro ficou em evidência após repetidas e exageradas quedas.

Para Ilana Berenholc, estrategista em personal branding, foi nesse momento que o jogador perdeu a credibilidade. “Seu comportamento em campo o colocou à mercê dos telespectadores e de seu julgamento. Não sabemos o que passa pela sua cabeça, mas a impressão que ficou é que ele estava encenando e tentando enganar o juiz”, explica ela.

A partir de então, mesmo sofrendo faltas, Neymar se tornou o “menino que gritava lobo”, como na fábula de Esopo em que um pastor causava alarde em sua vila com vários alarmes falsos da presença do lobo, até que o animal apareceu e, ao pedir ajuda, ninguém acreditou nele.

Isso ficou evidente no jogo contra o México, quando o jogador Miguel Layún saiu impune após pisar no pé do Neymar, enquanto a dor deste é vista como teatro.

O que condenou a reputação do jogador vale para todo profissional, segundo Rafael Souto, presidente da Produtive.

“A reputação se constrói a partir do comportamento. Mesmo sendo um bom jogador, suas ações geram danos a sua imagem. Um executivo que sempre está atrasado pode não ser demitido por isso, mas fica com a reputação ruim”, diz ele.

Para a estrategista em personal branding, comportamento pode ser o motivo de estagnação de várias carreiras. “Principalmente quando falamos de grandes talentos em empresas, acredita-se que as capacidade técnicas são suficientes e os aspectos comportamentais ficam de lado. No entanto, no trabalho nos relacionamos com pessoas, não com talentos”, diz ela.

Souto coloca a reputação como o pilar da carreira. Segundo o executivo, até pouco tempo, apenas o resultado era considerado para avaliar um funcionário. Hoje, é preciso estar atento à reputação, pois essa é essencial na estratégia de carreira. “Jogar bem é importante, mas a sua imagem profissional também é”, diz.

Ousadia e alegria? Não, humildade e paciência

Os especialistas acreditam que ainda há esperanças para o jogador. Mas, para recuperar sua reputação, ele vai precisar de dedicação.

O primeiro passo é entender onde está errando. Depois, mudar sua atitude e, por fim, deixar o tempo fazer seu trabalho. Uma mudança de imagem não acontece do dia para a noite, nem se a pessoa persistir no erro.

Não é simples também. Uma vez marcado por um estereótipo, o profissional precisa manter um comportamento consistente com a mudança que quer promover. Um deslize pode refrescar a memória para os erros passados.

Segundo Ilana Berenholc, o estresse e a pressão no trabalho podem trazer à tona comportamentos negativos, que são reações automáticas a estímulos do ambiente.

“A pessoa precisa entender qual sua reação e o que a desencadeia para poder administrá-la. Dependendo de cada caso, isso pode ser mais fácil ou mais trabalhoso. Como um executivo explosivo e agressivo ou um funcionário que se omite diante de pressão. Algumas pessoas ficam nervosas e seu escape é fazer uma piada”, conta ela.

Ao identificar o comportamento que prejudica sua imagem, é hora de mudá-lo. “Muita gente se recusa a mudar. A soberba e a arrogância são inimigas de qualquer mudança de imagem”, fala Souto. “Se o profissional se comunicava de forma agressiva por anos, ele precisa dar um tempo para que seu colegas reconheçam que mudou”, diz.

Para ele, reconhecer o erro pode ser um processo interno, que requer humildade, e depois deve ser refletido em suas ações. É preciso paciência também. Em seis meses ou um ano, as mudanças começarão a ter efeito.

Para reverter a imagem negativa, a estrategista defende que a conduta do profissional deva ser impecável. “A pessoa deverá ser extremamente consistente, leva muito tempo e uma escorregada pode comprometer sua nova imagem.”, diz.

Em 4 anos entre uma Copa e outra, ela acredita que o craque brasileiro terá chance de se redimir. Seja pela duração curta das piadas na internet ou pela performance do jogador nos campeonatos europeus. “Mesmo que fique na memória da torcida, se suas ações refletirem uma mudança, ele será reconhecido como um novo Neymar”.

Corrida para acalmar a tropa

O app da Revista Exame publicou nesta semana matéria sobre a reputação dos profissionais que trabalham em empresas envolvidas em escândalos, com a participação de Rafael Souto, CEO da Produtive.

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Na manhã de segunda-feira 20, os funcionários da unidade de Lins (SP) da JBS tiveram o trabalho interrompido e foram chamados para uma reunião de emergência. Por cerca de 45 minutos, o diretor da unidade leu uma carta escrita pelo CEO da empresa, Wesley Batista, e tirou dúvidas dos trabalhadores. “Está todo mundo aflito e se sentindo injustiçado”, afirma um dos funcionários. O procedimento foi padrão em todas as fábricas da JBS espalhadas pelo país, mesmo sem que nenhuma delas tenha sido interditada e não haja menção no relatório da Polícia Federal (PF) sobre irregularidades sanitárias da companhia.

A empresa não se pronuncia sobre os procedimentos internos, mas EXAME hoje teve acesso ao comunicado, que recruta os funcionários a defenderem a empresa e suas marcas, como Seara e Friboi. “Esse é o momento de, mais do que nunca, nos unirmos para defender nosso trabalho, nossa empresa e tudo que acreditamos… Precisamos deixar tudo isso claro para todos. Não temos nada que comprometa a qualidade e a segurança alimentar de nossos produtos e marcas”, diz a carta.

A preocupação dos frigoríficos brasileiros da porta para fora ficou evidente nos últimos dias. Como as investigações ainda estão em andamento, os danos às companhias são incalculáveis. As ações de JBS e BRF estão em queda desde sexta-feira, quando foi deflagrada a operação, e uma série de mercados (como China, Hong Kong e a União Europeia), suspenderam a compra de carne. Mas uma faceta menos pública da crise de imagem acontece dentro das companhias. Afinal, a vida tem que continuar. Como acalmar os ânimos dos funcionários e continuar motivando a equipe?

A BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão e um dos principais alvos da Polícia Federal convocou seus funcionários para defender suas marcas publicamente. Desde o final de semana a companhia veicula uma campanha institucional na televisão onde funcionários aparecem, de forma voluntária, segundo a empresa, postando imagens e textos favoráveis à companhia. São trabalhadores ao lado de seus refrigeradores e churrasqueiras garantindo a qualidade das carnes. A mensagem da empresa é “a gente só produz os alimentos que a gente coloca na mesa das nossas famílias”. Em nota, a companhia manifesta seu apoio à fiscalização do setor e ao direito de informação da sociedade com base em fatos, sem generalizações que podem prejudicar a reputação de empresas idôneas e gerar alarme desnecessário na população.

Ao todo, BRF e JBS empregam cerca de 300.000 funcionários. Segundo Rafael Souto, presidente da consultoria Produtive, especialista em recolocação profissional, o grande risco de episódios como esse é a “condenação dos funcionários sem apelação”. “Muitas vezes há uma transferência de reputação da empresa para os trabalhadores, que acabam sendo penalizados. O mercado de trabalho é mais rígido do que a Justiça em alguns casos e marginaliza esses profissionais”, diz. Quanto mais alto o nível hierárquico, evidentemente, maior a pressão.

“Em um primeiro momento esse escândalo atinge em cheio as diretorias e profissionais de nível sênior. Quem trabalha como analista, supervisor e nas fábricas não deve se preocupar tanto”, diz João Marcio Souza, Diretor da Talenses Executive, consultoria especializada em gestão de pessoas.

Mesmo assim, independente do cargo, o currículo pode ficar marcado. “Mesmo que nada seja provado contra essas empresas, os funcionários terão ao menos de contar essa história em cada entrevista de recolocação que fizerem”, afirma.

A lógica vale para todas as empresas mencionadas pela PF, mas para as pequenas a situação pode ser ainda pior – especialmente no caso da paranaense Peccin, acusada de usar carnes estragadas em sua linha de produção. “Os profissionais dessas companhias podem ter dificuldades de recolocação em âmbito regional”, diz Souza. EXAME. Hoje visitou a unidade do frigorífico Peccin em Curitiba e apurou que alguns dos 400 funcionários já estão procurando recolocação nas fábricas vizinhas – a fábrica está fechada por determinação judicial.

Como ainda se trata de uma investigação em que os primeiros sinais dão conta de que os problemas com a carne são episódios isolados e não enraizados na cultura das empresas, Rafael Souto, da Produtive, afirma que o estrago pode ser contido. “Uma comunicação transparente com os funcionários e com o mercado ajuda a reforçar que são problemas pontuais, e que as medidas para resolver a situação estão sendo tomadas”.

O desafio maior, segundo o consultor, é quando a corrupção se mostra enraizada. “Em casos de empresas como a Odebrecht e Petrobras, por exemplo, o problema ganhou outra dimensão. Nessas companhias, as investigações comprovam participação dos líderes e de toda a cadeia. Aí é mais difícil para o profissional se manter imune. Já vi muitos casos de funcionários qualificados terem dificuldades para se recolocar por estarem nessas empresas”, afirma. A reputação do empregador, em casos limites, pode atingir a todos – do porteiro ao diretor. “Infelizmente a minoria erra e a maioria é punida”, diz.

Nestes casos, há o risco até de uma debandada de executivos e funcionários. Segundo Souza, da Talenses, isso não aconteceu entre as empreiteiras por conta da crise econômica. “Se estivéssemos vivendo um momento como o de 2010, por exemplo, essas empresas teriam experimentado um esvaziamento de bons profissionais. Muitos só estão esperando a oportunidade certa para pular fora”, diz. Os frigoríficos trabalham, claro, para que nada disso aconteça. Uma apuração mais criteriosa do que de fato ocorreu, para informar não só os funcionários, como toda a sociedade, certamente ajuda.

Condenados sem apelação

Na edição de março da revista Você S/A, Rafael Souto, CEO da Produtive, discorre sobre o cuidado que o profissional precisa ter em sua carreira a fim de evitar uma imagem manchada no mercado.

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A reputação compreende o grau de confiança que o mercado deposita numa pessoa. Ela está intimamente ligada à imagem da organização para a qual o profissional trabalha ou já prestou serviços. O ponto de atenção é o quanto a percepção do mercado sobre uma empresa se transfere para a imagem do profissional.

Em tempos de Lava-Jato, o risco de contaminação de uma carreira pela transferência de reputação da empresa é enorme. O mercado é muito mais cruel do que a justiça.

No sistema judiciário, um inocente dificilmente é condenado. Temos um amontoado de instâncias e recursos que permitem aprofundar a responsabilidade de cada pessoa na gestão de uma empresa. Já no mercado de trabalho a condenação é cruel e silenciosa. Ao menor sinal de fumaça, uma carreira pode ser joagada na lata do lixo.

Um profissional que atua numa companhia com imagem comprometida por escândalos de grande notoriedade ou percebida como não confiável está condenado. Não é chamado para entrevistas, não recebe retorno e nem saberá o porquê. Essa mácula silenciosa ocorre todos os dias nas empresas de recrutamento, na área de gestão de pessoas e na mesa de decisão sobre contratações.

O mais dramático é a generalização – concluir que todos os funcionários de uma empresa valem menos porque a alta gestão cometeu práticas ilegais. Mas não adianta achar injusto. Uma regra básica de contratação é minimizar os riscos. Na dúvida, as empresas não contratam.

O efeito colateral é o impacto na carreira dos profissionais que lá trabalham e ficam expostos a esse profundo desgaste de imagem. São rotulados pelos erros da empresa sem aprofundar sua real responsabilidade.

Por isso, uma das questões mais relevantes para se decidir trabalhar numa organização é medir esse risco. Não adianta estar num ótimo projeto se a empresa estiver no penhasco da falta de credibilidade.

Cabe a cada profissional avaliar profundamente uma empresa antes de aceitar uma proposta de trabalho. Essa análise não é simples porque o processo seletivo funciona como um jogo de sedução. A organização costuma enfeitar a oportunidade e vender sua proposta como a chance da vida do profissional. Por isso, é preciso analisar a reputação da empresa no mercado, a percepção de ex-executivos e conversar com pessoas que conheçam o setor no qual a empresa atua. Ainda assim, o risco é alto.

Se mesmo com todos esses cuidados você descobrir algo grave sobre sua empresa e não tiver como alterar o rumo dos negócios, o melhor é buscar outro trabalho para não acabar condenado pela irresponsabilidade de outras pessoas.