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Existe um novo conceito de sucesso profissional

Rafael Souto, CEO da Produtive, defende que pensar em trabalho, além do emprego tradicional, é uma forma de planejar a carreira.

As transformações do mercado de trabalho e o desenvolvimento da sociedade vêm trazendo novos contornos nas definições de sucesso profissional. O próprio conceito de carreira vem mudando.

Durante muito tempo, desde o início da organização formal do trabalho industrial há mais de 100 anos, a carreira era definida como uma sequência de cargos. O sucesso era medido pelo nível de evolução ao longo da trajetória profissional. A estrutura era piramidal e definida no clássico organograma recheado de descrições de cargos e níveis hierárquicos.

O planejamento de carreira era baseado na definição de metas para atingir cargos. Então, para ser um diretor comercial ou o presidente de empresa, o profissional tinha que atingir diversas metas de carreira.

Naquela época, as estruturas permitiam e favoreciam esse pensamento. Uma sequência pré-definida pela organização de passos e cargos para que as pessoas fossem evoluindo ao longo dos anos. Esse conjunto de conceitos dominou o mercado de trabalho por muito tempo e ainda está enraizado no modelo mental de muitos profissionais. Por essa razão, um grupo de pessoas ainda espera por um plano de carreira da empresa e o debate sobre carreira ainda se restringe ao diálogo sobre cargos e salários.

A partir da revolução tecnológica e da competição global do final do século passado, esses conceitos foram mudando. O desenho de carreira mudou, seja pela dinâmica de uma nova economia que não permite previsibilidade, ou pela demanda de uma sociedade que passou a questionar mais.

Diante disso surge um novo conceito de carreira, que é definido por um conjunto de experiências significativas para o indivíduo. Ou nas palavras do idealizador dessa nova abordagem, Douglas T. Hall: “Carreira é uma sequência de experiências pessoais de trabalho ao longo do tempo”.

O sucesso profissional é medido pelo quanto o profissional consegue implementar seus objetivos e se realizar. Isso não significa necessariamente atingir posições elevadas ou ter o cargo mais alto. O projeto de carreira deve ser construído a partir das experiências que ele acumula ao longo da vida. Não falamos mais em sequenciamento de cargos ou plano de carreira.

Como definiu o brilhante pesquisador Mark Savickas, as carreiras não surgem, são construídas. Essa é uma jornada de cada profissional. O planejamento de carreira contemporâneo é feito pela definição de objetivos gerais que possam nortear as ações. É fundamental pensar o futuro e ter clareza sobre seu protagonismo. Mas, isso não significa definir objetivos fixos como um cargo ou uma empresa para trabalhar.

A construção dessa estratégia pode incluir ideias amplas que permitam fazer movimentos nessa direção. Por exemplo, um macro objetivo de carreira pode ser assumir posições de gestão ou ter uma carreira internacional. Ou ainda, optar por uma carreira técnica e se desenvolver como especialista. O alvo é móvel e não há um caminho pré-definido.

Nesse conceito mais ampliado de carreira, também temos que pensar que ela não se restringe a ser funcionário de uma empresa. Construir alternativas de renda, empreender e pensar em trabalho além do emprego tradicional também são formas de planejar a carreira.

As experiências que vão formando a carreira podem ser diversas e não necessariamente estar em uma organização. Emprego formal é uma das maneiras de trabalhar, mas não é a única. O empreendedor também tem uma carreira e precisa pensar nas suas estratégias de desenvolvimento.

Cabe a cada um buscar este repertório e informações para desenhar estratégias e construir seu projeto de carreira. Para as organizações contemporâneas, fica o desafio de criar oportunidades para que as pessoas realizem seus projetos na empresa.

Já para os que acham utopia pensar em uma empresa que favoreça seus funcionários na realização de seus projetos, o desafio está em aumentar o engajamento das pessoas.

No novo mundo do trabalho não há mais espaço para líderes que imponham seu modelo de carreira. Para aqueles que quiserem seguir no antigo, restará reclamar da falta de talentos e assistir a mediocridade triunfar ao seu redor, porque os mais talentosos irão embora na busca de empresas conectadas ao seu tempo.

NOVAS FORMAS DE CRESCER NA CARREIRA

Para a revista Você S/A, Rafael Souto mostra as tendências do novo mundo do trabalho e como conseguir crescer na carreira neste novo cenário.

Seguimos em uma fase de profundas transformações nos negócios e na sociedade. O século XXI é um amplo espaço de desafios e oportunidades. Pensar a carreira nesse novo mundo do trabalho exige nos livrarmos dos antigos conceitos de crescimento profissional.

As empresas compreenderam que é preciso transformar seus ambientes e estruturas. Por isso, os modelos tradicionais de trabalho baseados em emprego de longo prazo, crescimento linear, plano de carreira e hierarquia, já são considerados retratos de museu. Muitas companhias estão engatinhando na construção e na aplicação de novos modelos de trabalho, mas passar por este desafio é inevitável.

Por mais que possamos esperar por mudanças nas organizações, existe uma transformação fundamental nesse processo: o modelo mental do indivíduo. E a primeira questão para refletir é a visão do trabalho.

A antiga orientação dos pais de que é necessário estudar para ter uma bom emprego não serve mais. A atual deve ser: estude e se prepare para as oportunidades. Estamos na era da trabalhabilidade. Isso significa estar aberto para diversas formas de trabalho. O emprego é uma delas, mas não é a única. Como você analisa, por exemplo, atuar como parte de um projeto temporário, ser voluntário, consultor ou empreendedor?

Se você estiver trabalhando em uma organização que possui o modelo de emprego tradicional, temos um segundo ponto na jornada de transformação do modelo mental: a forma de crescimento nas empresas.

Quando analisamos as estruturas de trabalho de 30 anos atrás, tínhamos organizações com um número enorme de cargos e níveis na estrutura. Isso foi tremendamente reduzido pela necessidade de competição e ganhos com a tecnologia.

As maiores empresas do mundo, hoje, não têm mais do que sete níveis hierárquicos. Isso transformou a forma de crescer na carreira. Por essa razão, não é mais possível pensar num alvo fixo, como um cargo. A nova meta de crescimento é flexível, pode significar movimentos laterais, integrar novos projetos e, com isso, aumentar a prontidão para novos desafios. Desejar ter uma ascensão vertical baseada nos antigos planos de carreira, trará frustração.

É necessário estar aberto a novos formatos de trabalho. O emprego tradicional não será extinto, mas está em rápida transformação. Precisamos nos preparar para alternativas de trabalho e de crescimento. O sucesso não será mais medido por cargos, e sim pelo nível de satisfação e pela capacidade do indivíduo contribuir na sociedade.