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O efeito Lúcifer

Rafael Souto, para a edição de novembro da Você S/A, relaciona um estudo do psicólogo  Philip Zimbardo a comportamentos de executivos que ele observa em boa parte das empresas.

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Há um famoso estudo que sempre me vem à mente quando observo algumas situações e comportamentos das pessoas. Em 1971, Philip Zimbardo, psicólogo americano, realizou um ensaio numa penitenciária fictícia de Palo Alto, na Califórnia, e constatou que indivíduos normais, quando colocados na posição de carcereiros e em situações limites, passaram a maltratar os presos.

Mesmo sabendo que o ambiente não era real e que os prisioneiros eram gente inocente, que não havia cometido nenhum crime, o ato de penalizar o “outro” era notório entre esses participantes detentores de poder. Zimbardo chamou esse movimento de “efeito Lúcifer”, que acontece quando a pressão e o poder fazem com que pessoas consideradas boas pratiquem atrocidades.

Essa conclusão do estudioso reflete, em muito, comportamentos que observamos nas organizações. Pressionados para gerar resultados acima da média num ambiente global de alta competição, e num mercado instável, muitos líderes são fabricados nos moldes de “luciferes”.

Somadas a isso, há as conhecidas mazelas brasileiras, com sistemas engessados, regime tributário pesado e instabilidade econômica e política, entre muitas outras. Adiciono a cobrança de acionistas e conselhos de administração, os quais, a cada reunião analisam o próximo profissional a ser eliminado do jogo por não ter conseguido chegar à meta do trimestre. É a tempestade perfeita para tornar cada vez mais difícil a vida dos executivos.

Como resultado desse cenário de filme de terror, não é raro nos deparamos com líderes agressivos, arrogantes e dotados de habilidades que destroem emocionalmente suas equipes.

Os acionistas que têm apenas a visão de curto prazo estão longe de contar com pessoas engajadas, comprometidas, resilientes e inspiradoras em suas companhias. A ideia é oposta. Na verdade, eles constroem chefes que se valem do modelo de comando e controle e, em muitos casos, cometem abusos de autoridade na forma de gerir seus times.

A única fórmula que vejo para modificarmos esse cenário é se a alta gestão colocar-se numa posição reflexiva e fazer uma revisão dos valores e das expectativas em relação ao papel dos gestores.

Qualquer caminho contrário apenas reforçará os ambientes tóxicos que transformam as organizações em verdadeiros sanatórios de executivos.