Os mais curiosos sobreviverão no novo mundo do trabalho


Grandes estudiosos falam que explorar a curiosidade para a carreira é fundamental para sobreviver neste novo mundo do trabalho e o CEO da Produtive, Rafael Souto, provoca uma reflexão em torno desta competência em sua coluna no jornal Valor Econômico.

As mudanças no mundo do trabalho vêm ocorrendo de forma acelerada. As teses sobre extinção de empregos e oportunidades do mercado de trabalho brotam quase que diariamente. Algumas delas são sombrias, apontam para demissões em massa com a substituição de pessoas por máquinas e robôs em larga escala. Outras já são mais otimistas e mostram caminhos e espaços para novas profissões e negócios decorrentes das ondas tecnológicas.

Em meio a isso, a expressão FOW surgiu como uma forma de seguir tratando dessa temática. A sigla significa o Futuro do Trabalho ou Future of Work, em tradução livre.

As atividades profissionais e estruturas organizacionais estão mudando rapidamente, assim como os modelos de ascensão vertical na carreira. A imprevisibilidade dos negócios altera a lógica de sequenciamento de cargos. Não há mais plano de carreira na empresa. É papel do indivíduo explorar alternativas e estar pronto para oportunidades que surgirem, sem prazo definido ou alvo fixo. E não há mais um cargo definido por meio de uma evolução linear, como tínhamos no passado. O plano precisa ser construído pelo indivíduo para desenvolver sua prontidão e aproveitar as possibilidades de trabalho.

A cientista comportamental ítalo-americana e professora da Harvard Business School, Francesca Gino, publicou recente artigo mostrando a importância da curiosidade para a carreira neste novo cenário de mercado. Ela ressalta que essa competência será a mais relevante para atingir resultados e crescer profissionalmente. O estudo realizado por Francesca com mais de três mil profissionais de diversas empresas e setores evidenciou vários benefícios que a curiosidade pode causar. Um deles é errar menos na tomada de decisão, além de aumentar os níveis de inovação e da capacidade de explorar possibilidades de carreira e também de reduzir conflitos em grupo.

Já o pesquisador norte-americano Mark Savickas desenvolveu alguns conceitos que chamamos de “adaptabilidade de carreira”. Esse estudioso é uma das maiores autoridades mundiais em aconselhamento profissional. Por isso, desenvolver a tal da “adaptabilidade” é um importante passo nas reflexões de gestão de carreira. Fazendo uma relação entre teorias, o conceito darwiniano, migrado para o mundo dos negócios, trata da prontidão das pessoas para adaptar-se às mudanças com menos dificuldade e, portanto, sobreviverem neste mundo em transformação.

A essência da adaptabilidade de carreira está no protagonismo que o indivíduo deve ter sobre sua vida profissional. Pessoas com baixo controle sobre seu futuro tendem a ter mais dificuldade de adaptar-se. São profissionais que só vivem o hoje. Tomam decisões sem medir o impacto no futuro e esperam que as empresas os carreguem. Delegam suas carreiras ao mundo. Na outra ponta, são ainda poucos os que possuem maior gestão sobre seus rumos profissionais que, por consequência, fazem escolhas com maior êxito.

Entre as competências desenvolvidas por Savickas sobre a adaptabilidade de carreira, a curiosidade também é um dos destaques.

As empresas vêm reduzindo suas estruturas em um ambiente de negócios altamente competitivo. O número de níveis hierárquicos caiu drasticamente nos últimos anos. Buscando eficiência e eliminação de custos, as companhias cortaram cargos e ajustaram sua arquitetura organizacional.

Isso nos leva a duas conclusões. A primeira é que as possibilidades de crescimento linear são mais escassas. Não existem tantos cargos e movimentos ascendentes como existiram no passado.

Já a segunda delas é de que o profissional precisará fazer mais movimentos laterais e buscar crescimento que não seja apenas a promoção tradicional de cargo. Isso exige exploração ativa. É a competência da curiosidade. Na prática, significa pesquisar alternativas na empresa, questionar possibilidades e estar aberto a novas experiências.

Nesse cenário, a busca por um diálogo de carreira entre líder e sua equipe será fundamental. Entender os desejos e as ambições do profissional e a conexão com o projeto empresarial serão cada vez mais necessárias. É neste momento que a competência de exploração ativa é essencial. Investigar alternativas, discutir possibilidades de carreira e navegar nesse ambiente menos estruturado são desafios para todos os profissionais do século XXI.

A pesquisa conduzida pela profª Francesca revelou que, em muitas situações, a alta gestão da empresa bloqueia a curiosidade de seus times porque tem uma noção equivocada sobre exploração. Acha que o excesso de questionamentos pode gerar desalinhamento ou dificultar a gestão, tornando as decisões lentas.

Neste universo de respondentes do estudo, apenas 24% se sentiam “autorizados” para fazerem perguntas e explorarem alternativas em suas empresas.

Nesse mesmo levantamento, foram entrevistados 520 líderes de alta gestão. E, quando questionados sobre a importância do tema, 92% concordam que a curiosidade é um fator preponderante no trabalho. Porém, a maior parte deles não consegue encorajar seus colaboradores a praticar a exploração ativa.

No contexto do FOW, temos um imenso desafio. De um lado incentivarmos colaboradores a assumirem seu protagonismo e explorarem possibilidades. E, do outro lado, preparar líderes que sejam capazes de lidar com questionamentos e saibam gerir de forma mais aberta. Afinal, mais do que falarmos sobre robôs, indústria 4.0 e novas profissões, teremos de trabalhar uma mudança de modelo mental que permita caminhar neste novo cenário.

 

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