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Desenvolva os talentos ou assista a eles irem embora

Como gerenciar talentos dentro das organizações? Nem sempre é uma tarefa fácil, por isso, em seu novo artigo para o Valor Econômico, Rafael Souto, CEO da Produtive, discorre sobre percepções neste tema que aumenta o turnover e a queda de capital intelectual nas empresas.

A gestão de pessoas talentosas é sempre um tema importante nas empresas. A intensidade e a preocupação com o assunto aumentam quando a economia dá sinais de aquecimento e as oportunidades tendem a crescer. O desafio para lidar com esses profissionais com alto poder de contribuição está em criar uma abordagem consistente que traga resultados objetivos para a organização.

Li, em recente artigo da Harvard Business Review, três pontos que são significativos para esse grupo de alto potencial.

O primeiro é a causa ou o propósito. Significa perceber que seu trabalho faz sentido e está em sintonia com seus objetivos de vida e valores. É uma conexão entre seu sistema de crenças e os valores praticados pela empresa. A questão aqui é permitir que os profissionais se expressem e consigam refletir com seus líderes sobre propósito e o impacto do seu trabalho. O desafio é que, na lógica tradicional de gestão baseada em comando e controle, esse tipo de conversa é tida como pouco útil ou de menor relevância no ambiente corporativo. O choque de “mindset” entre gestores jurássicos e profissionais interessados em reflexões sobre propósito é um caminho rápido para despachar os talentos para a concorrência.

O segundo aspecto é sentir-se respeitado e reconhecido. Pessoas talentosas querem ser percebidas na empresa em que trabalham e na sociedade. O reconhecimento na empresa exige feedback constante e lideranças capazes de oferecer clareza nos aspectos positivos e pontos de desenvolvimento. Isso não significa oferecer somente elogios, mas sim transparência e consistência na relação entre líder e liderado. Fato é que um estudo global divulgado pela revista Forbes, com mais de 2.500 profissionais, mostrou que 45% deles não sentem admiração pelos seus chefes.

Já a terceira questão é a perspectiva de desenvolvimento da carreira. Nesse ponto, os desafios são imensos dadas as profundas transformações no mundo do trabalho. A redução constante de estruturas e a ausência de previsibilidade sobre carreira trouxeram maior complexidade às organizações. Já não há mais o plano de carreira para oferecer. Com isso, a discussão do futuro na empresa precisa de uma interlocução diferente. É necessário um diálogo mais profundo entre líder e liderado que estimule o protagonismo do indivíduo. E que, ao mesmo tempo, seja acolhedor para ajudar o profissional no seu desenvolvimento. O modelo antigo em que a empresa determinava os passos de carreira de um profissional precisa ser substituído por uma abordagem que permita compreender os interesses de carreira do colaborador e, a partir daí, construir um conjunto de cenários possíveis para realizar esse projeto. O plano passa a ser do indivíduo. Empresa e colaborador passam a dialogar sobre carreira e desenvolvimento. Dessa forma, o profissional faz suas reflexões e tem insights de carreira. Essas reflexões são discutidas com um líder preparado para ajudar e colaborar nas discussões.

Para isso, é necessário investir tempo, recursos e energia em educação sobre carreira e na preparação de líderes para esse novo cenário. Grandes organizações como GE, VALE e EDP vêm investindo fortemente na construção de áreas que tratem o tema carreira e estimulem o protagonismo do indivíduo.

Por isso, vejo que uma das prioridades organizacionais deve ser fortalecer seu propósito e proposta de valor. Talentos não são retidos, mas engajados. Precisam ser cativados pela organização.

A outra prioridade necessária é rever as práticas de gestão de pessoas para que estejam alinhadas com as constantes transformações do mercado. E por fim, trabalhar na transformação dos modelos mentais de líderes e colaboradores para impulsionar o protagonismo de carreira e o diálogo.

Nessa direção, a oferta da empresa passa a ser: experiências significativas para a carreira do colaborador, e não mais uma sequência de cargos ao longo da sua trajetória. Alinhado a isso, como define, de forma brihante, o pesquisador Douglas Hall, a carreira contemporânea é uma soma de diversas e significativas experiências que propiciam desenvolvimento.

Os mais curiosos sobreviverão no novo mundo do trabalho

Grandes estudiosos falam que explorar a curiosidade para a carreira é fundamental para sobreviver neste novo mundo do trabalho e o CEO da Produtive, Rafael Souto, provoca uma reflexão em torno desta competência em sua coluna no jornal Valor Econômico.

As mudanças no mundo do trabalho vêm ocorrendo de forma acelerada. As teses sobre extinção de empregos e oportunidades do mercado de trabalho brotam quase que diariamente. Algumas delas são sombrias, apontam para demissões em massa com a substituição de pessoas por máquinas e robôs em larga escala. Outras já são mais otimistas e mostram caminhos e espaços para novas profissões e negócios decorrentes das ondas tecnológicas.

Em meio a isso, a expressão FOW surgiu como uma forma de seguir tratando dessa temática. A sigla significa o Futuro do Trabalho ou Future of Work, em tradução livre.

As atividades profissionais e estruturas organizacionais estão mudando rapidamente, assim como os modelos de ascensão vertical na carreira. A imprevisibilidade dos negócios altera a lógica de sequenciamento de cargos. Não há mais plano de carreira na empresa. É papel do indivíduo explorar alternativas e estar pronto para oportunidades que surgirem, sem prazo definido ou alvo fixo. E não há mais um cargo definido por meio de uma evolução linear, como tínhamos no passado. O plano precisa ser construído pelo indivíduo para desenvolver sua prontidão e aproveitar as possibilidades de trabalho.

A cientista comportamental ítalo-americana e professora da Harvard Business School, Francesca Gino, publicou recente artigo mostrando a importância da curiosidade para a carreira neste novo cenário de mercado. Ela ressalta que essa competência será a mais relevante para atingir resultados e crescer profissionalmente. O estudo realizado por Francesca com mais de três mil profissionais de diversas empresas e setores evidenciou vários benefícios que a curiosidade pode causar. Um deles é errar menos na tomada de decisão, além de aumentar os níveis de inovação e da capacidade de explorar possibilidades de carreira e também de reduzir conflitos em grupo.

Já o pesquisador norte-americano Mark Savickas desenvolveu alguns conceitos que chamamos de “adaptabilidade de carreira”. Esse estudioso é uma das maiores autoridades mundiais em aconselhamento profissional. Por isso, desenvolver a tal da “adaptabilidade” é um importante passo nas reflexões de gestão de carreira. Fazendo uma relação entre teorias, o conceito darwiniano, migrado para o mundo dos negócios, trata da prontidão das pessoas para adaptar-se às mudanças com menos dificuldade e, portanto, sobreviverem neste mundo em transformação.

A essência da adaptabilidade de carreira está no protagonismo que o indivíduo deve ter sobre sua vida profissional. Pessoas com baixo controle sobre seu futuro tendem a ter mais dificuldade de adaptar-se. São profissionais que só vivem o hoje. Tomam decisões sem medir o impacto no futuro e esperam que as empresas os carreguem. Delegam suas carreiras ao mundo. Na outra ponta, são ainda poucos os que possuem maior gestão sobre seus rumos profissionais que, por consequência, fazem escolhas com maior êxito.

Entre as competências desenvolvidas por Savickas sobre a adaptabilidade de carreira, a curiosidade também é um dos destaques.

As empresas vêm reduzindo suas estruturas em um ambiente de negócios altamente competitivo. O número de níveis hierárquicos caiu drasticamente nos últimos anos. Buscando eficiência e eliminação de custos, as companhias cortaram cargos e ajustaram sua arquitetura organizacional.

Isso nos leva a duas conclusões. A primeira é que as possibilidades de crescimento linear são mais escassas. Não existem tantos cargos e movimentos ascendentes como existiram no passado.

Já a segunda delas é de que o profissional precisará fazer mais movimentos laterais e buscar crescimento que não seja apenas a promoção tradicional de cargo. Isso exige exploração ativa. É a competência da curiosidade. Na prática, significa pesquisar alternativas na empresa, questionar possibilidades e estar aberto a novas experiências.

Nesse cenário, a busca por um diálogo de carreira entre líder e sua equipe será fundamental. Entender os desejos e as ambições do profissional e a conexão com o projeto empresarial serão cada vez mais necessárias. É neste momento que a competência de exploração ativa é essencial. Investigar alternativas, discutir possibilidades de carreira e navegar nesse ambiente menos estruturado são desafios para todos os profissionais do século XXI.

A pesquisa conduzida pela profª Francesca revelou que, em muitas situações, a alta gestão da empresa bloqueia a curiosidade de seus times porque tem uma noção equivocada sobre exploração. Acha que o excesso de questionamentos pode gerar desalinhamento ou dificultar a gestão, tornando as decisões lentas.

Neste universo de respondentes do estudo, apenas 24% se sentiam “autorizados” para fazerem perguntas e explorarem alternativas em suas empresas.

Nesse mesmo levantamento, foram entrevistados 520 líderes de alta gestão. E, quando questionados sobre a importância do tema, 92% concordam que a curiosidade é um fator preponderante no trabalho. Porém, a maior parte deles não consegue encorajar seus colaboradores a praticar a exploração ativa.

No contexto do FOW, temos um imenso desafio. De um lado incentivarmos colaboradores a assumirem seu protagonismo e explorarem possibilidades. E, do outro lado, preparar líderes que sejam capazes de lidar com questionamentos e saibam gerir de forma mais aberta. Afinal, mais do que falarmos sobre robôs, indústria 4.0 e novas profissões, teremos de trabalhar uma mudança de modelo mental que permita caminhar neste novo cenário.

 

Estamos obsoletos na forma de discutir carreira nas empresas

Discutimos as mudanças nos negócios, mas nossas estruturas internas e os modelos para desenvolver carreiras são arcaicos”. Veja o que Rafael Souto, CEO da Produtive, fala sobre o tema para o jornal Valor Econômico.

Boa parte dos executivos tem tido a missão de transformar os negócios das empresas a fim de conduzir o processo dessa mudança para competir em um mundo em acelerada evolução. As informações que temos à disposição são muitas e das mais variadas, que comprovam a necessidade de se transformar rapidamente ou assumir o fracasso.

No entanto, temos de pensar na conexão dessa agenda de transformação do negócio com a necessidade de mudar as estruturas de trabalho e a forma de discutir o desenvolvimento de carreira nas organizações.

Em geral, as pautas de negócios propõem a discussão sobre impacto da tecnologia, robotização, inovação, novos ecossistemas de trabalho entre as empresas e uma imensa lista de impactos positivos e de riscos nessa corrida evolutiva.

Mas, a maioria das estruturas de trabalho está vencida. Ainda pensamos a carreira nos modelos tradicionais do século passado. Discutimos as mudanças nos negócios, mas nossas estruturas internas e os modelos para desenvolver carreiras são arcaicos.

O primeiro desafio parece ser a mudança de modelo mental dos profissionais em relação à responsabilidade sobre a carreira. Isso porque ainda existe um grupo significativo de pessoas que transfere essa responsabilidade para a empresa, espera ansiosamente por um plano de crescimento oferecido pela organização, reclama com voracidade do gestor e do time de recursos humanos que não sabem seu rumo na empresa, e funciona como consumidores organizacionais esperando que o produto seja entregue.

As pesquisas de clima de diversas empresas mostram que o plano de carreira oferecido está no topo das expectativas dos profissionais. Em recente estudo global do Gartner, esse item apareceu como principal demanda para 52% dos entrevistados.

Isso revela que o modelo mental sobre carreira está contaminado por visões antigas de uma época de empregos de longo prazo, carreiras geridas pela empresa e enormes estruturas hierárquicas em que as pessoas iam sendo guiadas em planos pré-definidos pela organização.

Na carona desse problema temos gestores formados nos modelos de gestão autocráticas, cercados por organogramas rígidos e pouco abertos ao diálogo. São convictos que nos modelos de comando e controle terão sucesso. Sentem-se ameaçados pela mudança e não acreditam em protagonismo das suas equipes. Ao contrário, repelem a autonomia do indivíduo.

Junte-se a isso as estruturas de trabalho baseadas em modelos piramidais de cargos, organizadas de forma linear, que funcionavam bem em uma  época distante quando havia abundância de estruturas, baixo uso de tecnologia e ambientes com pouca competição. A necessidade de constante revisão de estruturas e redução de níveis fizeram com que os modelos de plano de carreira sucumbissem. Além disso, são modelos baseados em cargos e atividades que pouco permitem que os indivíduos entreguem o real potencial de suas contribuições.

As empresas mais avançadas neste tema vêm construindo suas estruturas em modelos híbridos. Isso não quer dizer que a versão tradicional irá desaprecer, mas segue oxigenada por modelos que permitem que as pessoas fluam na organização. Esses modelos flexíveis são chamados de “hubs”, “squads” ou times de projeto. São desenhos de atividades baseadas nas necessidades da organização e na capacidade de contribuição dos indivíduos.

Do ponto de vista do profissional, precisamos trabalhar na mudança no modelo mental, incentivando a responsabilidade pela própria carreira, reforçando o protagonismo e dando clareza que o plano de carreira da empresa não existe mais. O objetivo da empresa é apoiar o colaborador a se desenvolver e estar pronto para as possibilidades que surgirem.

Com líderes, precisamos prepará-los para dialogar com seus times. Buscar compreender e apoiar o desenvolvimento de seus colaboradores. O novo mundo do trabalho exige essa permanente proximidade com as equipes. Um diálogo aberto, constante e construtivista. Mais do qua avaliar desempenho, precisamos conversar sobre carreira.

O erro é um pecado corporativo fatal

Em sua Coluna no jornal  Valor Econômico, Rafael Souto, CEO da Produtive, fala sobre a fala bonita sobre tolerância ao erro, mas pouco verdadeira das empresas.

Há algum tempo, tenho criticado modismos que não passam de discurso corporativo nesta coluna. São iniciativas que não sobrevivem ao primeiro dia na empresa. Estampam manchetes e frases de efeito sobre o novo mundo dos negócios, mas são engolidas na primeira reunião de resultados.

Um desses modismos é a ideia de que o erro é uma permissão das empresas vencedoras. Algo do tipo: “aqui podemos errar e seremos mais fortes com nossos aprendizados”. Fala que surgiu no ícônico Vale do Silício pelo mantra “fail often, fail fast” (falhe sempre, falhe rápido), para mostrar que a tolerância ao erro seria parte de qualquer processo de inovação.

Vejo que não faltam caravanas e peregrinações para compreender como, em um pedaço  de terra no oeste americano, surgiu um celeiro de excelência, inovação e uma economia maior do que muitos países.

Infelizmente, o Vale do Silício não representa a cultura de gestão das empresas espalhadas pelo mundo. Na lógica de comando e controle, a cultura do erro permitido para inovar é uma mera teoria simpática.

Um recente artigo publicado pelo jornal The Wall Street Journal sobre este tema (“How not to Flunk a Failure”, de John Danner e Mark Coopersmith) listou algumas dicas para executivos aprenderem a valorizar os erros como parte do desenvolvimento. Esse é apenas um dos conteúdos relacionados à importância do erro nos negócios que vejo por aí.

Mas, no final das contas, todos sucumbem pela cultura de curto prazo e a imposição de sobrevivência da maioria das organizações. Imersas em restrições orçamentárias profundas e com a necessidade de geração de caixa, elas não podem falhar. O erro é um drama que gera má reputação para aqueles que o comete na empresa. Com velocidade supersônica, os dedos apontam para quem fez a leitura equivocada, não alertou sobre os riscos ou decidiu investir em um produto que naufragou. Não há espaço para falhas. O executivo que as comete carrega rapidamente uma marca negativa e, muitas vezes, difícil de corrigir. Terá sorte se sobreviver à próxima reestruturação.

O culto ao erro como parte do processo é restrito a algumas companhias. O Vale do Silício e seu inquestionável ecossistema inovador representam a realidade de um seleto grupo de empresas.

Uma pesquisa sobre os principais fatores de estresse e medo no trabalho da consultoria Deloitte, realizada no ano passado com 23 mil pessoas de 1.300 organizações e em 120 países, mostra que, para 82% dos entrevistados, o erro está no topo da lista e sai na frente de outros desencadeadores, como ter múltiplas atividades, dificuldade de entregar resultados e carga de horário excessiva. Ou seja, as pessoas sabem que não podem errar porque isso custará o emprego. Terão de carregar um peso que atestou a sua falha, perdendo o trabalho e o prestígio.

Podemos inferir que esse medo de agir pode significar uma escolha do indivíduo. Algo como um traço de personalidade que o impedisse de se expor, mesmo que o ambiente fosse tolerante ao erro.

Mas, na minha percepção, esta não é a realidade dos ambientes corporativos. As pessoas não se expõem porque têm medo das consequências do erro. Nossa espécie é hábil em analisar o ambiente e perceber o que é tolerável e quais as consequências das atitudes.

Não há dúvidas de que a inovação depende da tolerância ao erro. Não existe mudança significativa sem alguma dose de risco. Mas, parece que ainda estamos engatinhando na construção de ambientes genuinamente acolhedores e que permitam o aprendizado baseado nas experiências que não deram certo.

Para sairmos do discurso, precisaremos construir uma cultura de diversidade, aberta ao diálogo e de tolerância aos erros. Mas, não vamos nos iludir: essa mudança de modelo mental começa no topo da empresa. Acionistas, conselheiros e CEO precisam dar os sinais de que aceitam o erro como parte do aprendizado. O outro caminho será continuarmos tratando como moda textos modernos e de impacto cosmético.

O IMPÉRIO DOS JARGÕES E DOS CLICHÊS CORPORATIVOS

Segundo pesquisa, o uso de palavras complexas para expressar ideias simples é sinal de baixa inteligência e pouca credibilidade. É sobre este tema tão importante de carreira que Rafael Souto aborda em seu novo artigo para o Valor Econômico.

Escrevo nesta coluna há seis anos, que somados aos 23 que atuo como consultor de carreira, tenho a constante oportunidade de conversar com executivos dos mais variados setores.

A cada ano fico mais intrigado com a proliferação dos jargões corporativos. Mesclar palavras em outro idioma no meio das frases parece ser uma estratégia para dar credibilidade aos discursos, que muitas vezes são confusos e vazios, ou dar notícias difíceis com uma série de expressões complicadas, é entendido como um bom método para deixar a audiência menos irritada.

Lucy Kellaway, jornalista e ex-colunista do Financial Times, chamava esses jargões e clichês de besteirol corporativo. Como mestre desta arte, ela citou Howard Schultz, ex-presidente e membro do conselho da Starbucks, que falava frases como “experiência ultra imersiva e super premium em cafés”  ou “estamos 110% comprometidos com nossos clientes”.

O professor de psicologia da Universidade americana  de Princeton, Danny Oppenheimer, fez um estudo sobre o tema e mostrou que o uso de palavras complexas para expressar ideias simples é interpretado como sinal de baixa inteligência e pouca credibilidade. A conclusão é que a mensagem clara e direta tem impacto muito maior do que comunicações complicadas.

Embora o interlocutor fique com a sensação de que está impressionando positivamente ao comunicar-se de forma complexa, no fim das contas, é interpretado de maneira negativa. Na verdade, o vocabulário erudito e cheio de clichês só atrapalha.

O que parece é que boa parte dos executivos não compactua com as ideias do professor Opperheimer. Expressões como downsising, alinhamento, branding, follow-up, disruptivo, deadline, expertise, digital-first, enchem as reuniões de negócios e os textos corporativos.

Outra pesquisa publicada na Harvard Business Review pela professora Karen Mazurkewich afirma que líderes de empresas iniciantes que buscam investimentos obtém 50% a mais de sucesso quando fazem suas apresentações sem jargões técnicos e de forma simples e clara. Quanto mais diretos forem os discursos de apresentação, mais chances eles têm de ser atrativos para os investidores.

Conversando com executivos em uma visita recente, perguntei como estavam os resultados da empresa e eis o que ouvi: “neste Q2 estamos flat em relação ao ano passado”. Talvez fosse melhor dizer: “neste segundo trimestre, estamos com resultados fracos”, ao invés de incluir Q2 (quarter 2), e flat. Provavelmente a situação era bem mais grave do que isso e as expressões em inglês poderiam aliviar um pouco a própria pressão interna.

Quando observamos as conversas do momento de demissão, os clichês e as frases complicadas ganham contornos circenses. Alguns memorandos falam em: “otimizar recursos para maximizar resultados”. Quando, no fundo, todos sabem que a empresa está demitindo porque os resultados não foram satisfatórios e a organização precisa sobreviver. Ou ainda, quando um executivo é demitido, a expressão favorita é “chegamos à conclusão que deveríamos encerrar um ciclo”.

O mais intrigante dessa questão é que as pessoas sabem o que está por trás da comunicação rebuscada. Talvez alguns iniciantes fiquem impressionados pelas expressões sofisticadas. Mas, a maioria dos funcionários percebe a ideia obscura ou a falta de clareza na comunicação.

Essa provocação também cabe para o setor em que atuo. Consultorias são hábeis em criar complexidade no lugar de comunicações mais diretas e objetivas. Muitas vezes são as consultorias que constroem os jargões que depois caem no gosto dos executivos.

Estamos numa fase de profunda reflexão e transformação dos negócios. Muitas empresas criaram grupos de inovação para liderar as mudanças. Um dos desafios desses projetos é estimular comunicações claras. Construir uma cultura de simplicidade é uma potente forma de conectar pessoas e negócios. Essa comunicação transparente cria confiança e deixa as pessoas mais seguras. Ou traduzindo para o jargão de recursos humanos: “é uma estratégia contemporânea de engajamento dos colaboradores”.

Startups atraem profissionais de grandes empresas

Em reportagem especial do Valor Econômico, Rafael Souto, CEO da Produtive, explica por que os executivos de grandes empresas têm preferido trabalhar em Startups.

Novos modelos de negócios, como os oferecidos pelas startups, têm atraído cada vez mais profissionais que atuam em grandes empresas. O movimento é crescente, segundo especialistas em recrutamento e seleção. Levantamento da consultoria Michael Page, feito com 1.000 executivos de alta e média gerência, indica que nove em cada dez profissionais estão dispostos a trocar o ambiente corporativo por uma startup. A maioria dos executivos ouvidos na pesquisa diz que abriria mão de parte do salário para ter mais qualidade de vida e flexibilidade de horário.

O movimento dos executivos que saíram de grandes companhias para atuar em startups não ocorre por acaso, analisa Rafael Souto, CEO da Produtive. “As startups estão ganhando o coração e a alma dos executivos mais preocupados com o projeto, e não apenas com as questões financeiras”, diz. Além disso, os profissionais têm buscado  desafios que possam contribuir com um propósito ou uma causa, diz Souto.

Por mais que brilhem os olhos à primeira vista, a transição não é das tarefas mais fáceis. Um dos principais desafios tem a ver com a mudança de cultura. Em startups, costuma-se trabalhar por projetos e há uma pressão grande por resultados de curto prazo, observa Genis Fidélis, gerente de marketing e digital da Michael Page. “O profissional precisa trabalhar com a cabeça de empreendedor, o que significa uma mudança de mentalidade”, afirma. Isso significa ter capacidade de lidar com uma equipe diversa e, na maioria dos casos, enxuta. Ou seja, é preciso se preparar e ter convicção de que o modelo de trabalho tem a ver com o perfil e o momento de carreira.

Para Fernando Mantovani, diretor-geral da Robert Half, o profissional nem sempre vai encontrar o “glamour” nas startups. “É muita mão na massa, muita transpiração, precisa ter resiliência grande”, enfatiza. Ainda que exista flexibilidade de horário, em muitas ocasiões será necessário trabalhar até mais tarde, aos finais de semana e, claro, fazer de tudo um pouco. Sem contar que a remuneração costuma ser menor em relação ao salário recebido em grandes companhias. “Antes de decidir, vale conversar muito bem com os sócios da empresa em que está entrando e com pessoas do mercado que passaram por essa transição”, diz Mantovani.

Foi o que fez Isabela Martins, de 28 anos, diretora de operações da SambaTech. Após passar pelo programa de trainee da Ambev em 2014, no ano seguinte ela se tornou especialista em recrutamento e seleção da companhia, liderando um time com sete pessoas, em Niterói (RJ). Em 2016, foi alçada a gerente da área de gente e gestão, cargo que ocupou por quase dois anos. “Em uma das férias, quis ver o que estava sendo feito em relação a gestão e performance no ecossistema de startups”, conta. Após visitar sete empresas novatas, recebeu uma proposta para trabalhar na SambaTech.

Ela decidiu encarar a mudança. Em agosto de 2017, Isabela assumiu como gerente de performance da startup e há dois meses virou diretora de operações. “A liberdade e autonomia para sempre inovar é o que me motiva”, diz. Apesar da flexibilidade de horário e melhora na qualidade de vida, ela lembra do compromisso com resultados: não importa o período em que trabalhe, é preciso entregar o que foi combinado.

Em geral, as startups procuram profissionais dispostos a aprender rapidamente e com conhecimento em diversas áreas, destaca Amure Pinho, presidente da Associação Brasileira de Startups (ABStartups). Segundo a  Michael Page, a demanda por analistas, especialistas, coordenadores e gerentes cresceu 50% até março, ante o mesmo período de 2016. “Executivos com boa formação técnica, de bons relacionamentos e perfil analítico, são os mais desejados”, diz Fidélis.

Mais do que falar sobre o futuro do trabalho é preciso agir

Em seu novo artigo para o Valor Econômico, Rafael Souto aborda o protagonismo do indivíduo como umas das tendências do novo mundo de trabalho.

Temos um vasto repertório de informações para projetarmos o futuro num mundo em rápida transformação. O exercício de pensarmos o impacto dessas mudanças no trabalho é importante para indivíduos e organizações refletirem e definirem suas ações.

O ensaísta e professor Thomas Malone do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, escreveu um premiado livro chamado “The Future of Work” (O Futuro do Trabalho), que traz várias tendências a conhecimento.

A primeira questão essencial é o papel do indivíduo nas escolhas de sua carreira. Cada vez mais as pessoas querem escolher seu trabalho e participarem ativamente dos movimentos que acontecem dentro das organizações. Do ponto de vista do profissional, isso significa mais protagonismo. Afinal, a pessoa é responsável pelo desenvolvimento de sua carreira.

Essa consciência é oposta aos modelos antigos baseados no plano de carreira da empresa, substituindo uma visão paternalista das organizações por um modelo de participação ativa do indivíduo.

Para que isso aconteça, precisamos preparar líderes para escutarem os interesses e as possibilidades de contribuição das pessoas. Quando observamos a realidade das lideranças ainda temos chefes que operam no modelo de comando e controle. Pensam que sabem o que é melhor para as pessoas e agem de forma impositiva.

Uma pesquisa conduzida pela consultoria Gartner, na América Latina, mostrou que o principal fator de desmotivação das pessoas é a falta de oportunidades e perspectivas de carreira, correspondendo a 52% os pedidos de demissão e troca de empresa. Por isso, antes de pensarmos em retenção de talentos, teremos de preparar lideranças para engajar pelo diálogo transparente sobre carreira.

Outra tendência sobre os rumos do trabalho é a descentralização do poder. Em sua obra, Malone afirma que o futuro da gestão será construído na transição do modelo baseado em comandar e controlar para o de coordenar e cultivar. Novas habilidades serão exigidas para vencer em um ambiente em que as pessoas poderão escolher os seus próprios chefes e participarem diretamente das decisões importantes da empresa. Esses trabalhadores não serão necessariamente funcionários e sim profissionais autônomos conectados por meio da tecnologia, morando e produzindo onde e quanto quiserem.

No entanto, ao contrário do que se possa imaginar, essa liberdade nos negócios e essa nova forma de produzir permitirão que as pessoas obtenham mais do que realmente querem da vida: dinheiro, trabalho interessante, chance de ajudar as famílias e os outros.

A visão de Malone ainda parece distante da realidade. Quando pensamos numa parcela significativa das lideranças, concluímos que precisaremos de uma mudança de modelo mental. Construir estruturas flexíveis, menos hierárquicas, focadas na contribuição dos profissionais e com poder descentralizado ainda correspondem a um pequeno grupo de empresas que figuram nas páginas das revistas e dos eventos de gestão de pessoas. Na imensa maioria das empresas o modelo hierárquico e piramidal ainda prevalece.

Como terceira tendência nesse universo, e que parece ser cada vez mais irreversível, é a transformação do próprio modelo do emprego.

Um estudo recente da consultoria global McKinsey revelou que 80% da força de trabalho no mundo será impactada pelas mudanças provocadas por automação de atividades. Existem diversas projeções nessa direção, sendo algumas quase apocalípticas. Independente dos números, todos os profissionais serão afetados.

Essas transformações somadas ao aumento da longevidade e a decadência dos modelos de previdência pública impõem a construção de estratégias para buscar trabalho por muito mais tempo. A ideia de emprego tradicional não pode ser a única estratégia de geração de renda. Todos os profissionais precisarão construir um plano alternativo de trabalho, seja prestando serviços para uma empresa ou para várias organizações em tempo parcial, ou ainda montando seu próprio negócio. O formato não vai importar. O mais significativo será a capacidade de gerar renda e seguir produtivo na sociedade, algo muito além do emprego.

O aumento dos jogos de poder nas companhias

Como seria se o mundo corporativo não tivesse jogos de poder?  Em seu novo artigo do Valor Econômico, Rafael Souto, CEO da Produtive, faz uma reflexão sobre esta prática e diz porque esta realidade está longe de acabar.

Os jogos políticos fazem parte da vida organizacional. Basta um grupo de pessoas se juntar para a realização de alguma tarefa que teremos a formação de um nicho com poder.

Compreender essas dinâmicas e aprender a sobreviver nesse tabuleiro de xadrez é uma competência necessária para quem está no mundo do trabalho. Já faz alguns anos que tenho recomendado que os profissionais considerem, sim, os fatores políticos em suas carreiras. Presumir que todas as pessoas têm uma agenda comum e estarão dispostas a ajudar uns aos outros é pura ficção e certa ingenuidade. Na prática, as associações internas, os conflitos entre áreas, os influenciadores do poder estão muito além do organograma tradicional.

O escritor inglês Michael Korda, em 1983, tratou deste tema no livro “O Jogo do Poder na Empresa”. As histórias ilustradas por ele parecem ter sido tiradas dos quadrinhos do Dilbert e relatam o cotidiano quase circense das empresas. As brigas nos bastidores das organizações, o faz de conta das intermináveis reuniões, a troca seletiva de informações para a alta gestão e o teatro no entorno do ambiente empresarial são algumas das reflexões irônicas e cheias de críticas do retrato das organizações das décadas de 70 e 80.

Já no século XXI, ingressamos na fase do “politicamente correto”. Com coragem, enfrentamos questões corporativas relacionadas a sustentabilidade e a diversidade. Em paralelo a isso, seguimos com o mantra da colaboração, criado por mentes da era digital, que defendem que a construção de ecossistemas é a real geradora de valor para toda a sociedade. Essa reflexão moderna de negócios ressignifica o nosso modelo mental. Afinal, não devemos pensar somente no indivíduo e, sim, no conjunto que o cerca. Uma vez que temos abundância de conhecimento, não precisaremos competir ou prejudicar o outro. E é dessa forma que transformaríamos o planeta, melhorando o ambiente de trabalho e reduzindo os infames jogos de poder.

Na prática, percebo que esse conjunto valoroso de iniciativas ainda não passa de conteúdo para reportagens de revistas especializadas. Os jogos de poder e a falta de colaboração nas empresas estão mais vivos do que nunca. Podemos compreender parte dessa realidade quando observamos as pressões que os executivos enfrentam, como a competição por recursos limitados, as constantes trocas de controle acionário, a necessidade de realizar metas impossíveis e os planos de negócios mirabolantes, além da luta pela sobrevivência na empresa. Se somarmos a instabilidade econômica, as guerras políticas são ainda mais intensas.

Distante do mundo da colaboração e dos coloridos escritórios de coworking, a imensa maioria dos profissionais está afundada nessas dinâmicas de poder. Em um interessante texto de Maurício Goldstein e Philip Read, ambos especialistas em comportamento humano, são descritos alguns desses jogos de poder, como o “te peguei”. É um dos movimentos mais utilizados para apontar o erro do outro e gerar mais vantagem política. Outra técnica comum é o ‘sandbagging’, que significa reduzir propositalmente expectativas de vendas para obter vantagens.

Eles também citam as famosas fofocas como forma de levantar boatos nas empresas para a pessoa que espalhou receber atenção por obter informações privilegiadas. Outro exemplo é a “zona cinza”, cujo objetivo é lançar dúvidas sobre quem deveria fazer as atividades a fim de evitar responsabilidades. As conversas que tenho com executivos de alta gestão confirmam esse movimento. Alguns relatam que gastam mais de 50% de seu tempo com articulações políticas para sobreviverem nas corporações. Certamente, a energia desempenhada nessas dinâmicas deixou de ser aplicada em ações para a empresa.

Assim como incluímos a diversidade na pauta corporativa, teremos de discutir os jogos de poder e seus danos nas empresas. Falar em ambiente colaborativo e transparência será mais um dos modismos se continuarmos tendo empresas carregadas de articulações, agendas ocultas e individualismo. A não ser que essa agenda contemporânea seja apenas parte de mais um dos jogos de poder.

A eterna busca pela felicidade no trabalho

Em seu novo artigo para o Valor Econômico, Rafael Souto, oferece dicas para você saber se as atividades realizadas no trabalho te fazem feliz.

A felicidade no trabalho está na pauta das discussões sobre carreira e ganhou força nas últimas décadas. Essa busca surge em uma nova era das relações do trabalho. A  época em que a empresa definia, de forma isolada, o futuro das pessoas não atende mais às expectativas dos indivíduos. Hoje, as pessoas querem encontrar equilíbrio em seus diversos papéis na vida.

No Brasil, o advento da estabilidade econômica após 1994 foi um dos fatores que impulsionou essa temática. Até então, as pessoas não conseguiam planejar sequer o próximo mês. O Plano Real e uma certa tranquilidade na economia permitiram um olhar de longo prazo e abriram espaço para discussões mais profundas nas dinâmicas de trabalho.

Pensar em satisfação e felicidade começou a ser possível em um país que passou a gerar mais oportunidades. Assim, a luta por propósito deu espaço às reflexões sobre carreira. Nessa direção, existe uma potente prática para refletir chamada “flow”.

O conceito flow foi desenvolvido por Mihaly Csikszentmihalyi, psicólogo húngaro, PhD e professor da Universidade de Chicago (EUA), para designar as ótimas experiências de fluxo na consciência. Entrar no fluxo significa estar imerso em uma atividade sem precisar fazer esforço para se manter nela. São aquelas coisas que fazemos sem ver o tempo passar. Algo que desperta prazer e imersão genuína.

O psicólogo oferece como exemplo o estado de profunda conexão em que artistas, pintores, músicos e executivos ficam quando produzem determinadas atividades relacionadas às suas áreas de atuação. Podem ficar horas focados produzindo com naturalidade. Quando pensamos no flow para a carreira, estamos refletindo sobre um pilar fundamental para o desenvolvimento profissional: a satisfação.

É certo que o novo mundo do trabalho exige protagonismo do indivíduo. Os modelos antigos de plano de carreira nas organizações foram extintos. As empresas deixaram no passado a promessa de caminho pré-definido e previsível de crescimento. A necessidade de estar constantemente ajustando a estrutura e a instabilidade econômica fizeram com que os planos lineares oferecidos outrora se tornassem impossíveis de cumprir. Cada pessoa terá de construir o seu plano e navegar na instabilidade. Por isso, a construção desse projeto deve começar com uma reflexão sobre interesses, motivações e valores.

O flow é uma maneira de aprofundar essas questões. Para começar, pergunte a si mesmo quais atividades ou projetos trazem mais satisfação na execução. Ou quais coisas você faz com prazer e nem percebe o tempo passar.

Na brilhante construção de Csikszentmihalyi, ele adiciona dois pontos importantes para o estado de flow: habilidades e desafios. Quando conseguimos conectar as melhores habilidades e os desafios possíveis de serem atingidos, temos mais chances de encontrar o estado mágico do fluxo. Ao entrarmos nesta zona, realizaremos nossas tarefas em alto nível de desempenho e, consequentemente, encontraremos muita realização. Teremos fluidez e naturalidade na execução das atividades.

Há algumas semanas, participei de um evento sobre o novo universo do trabalho organizado pelo Valor. O foco era discutir o impacto da nova legislação trabalhista nas relações entre empresa e funcionários. Uma das questões centrais do debate foi a mudança no modelo de comando e controle para uma visão mais construtivista nessas relações.

No sistema hierárquico tradicional, a empresa definia as atividades e as pessoas simplesmente executavam. Esse sistema dá sinais de colapso porque não atende às exigências das pessoas mais qualificadas. É limitante do ponto de vista da contribuição do indivíduo e não favorece a inovação.

O caminho é uma abordagem de diálogo com o colaborador para identificar interesses e zonas de flow a fim de buscar a efetivação da satisfação no trabalho. Equilibrar o projeto empresarial com os interesses do indivíduo parece ser a abordagem mais contemporânea, inclusive para a construção de novos modelos de trabalho.

Estamos na era da trabalhabilidade. Isso significa encontrar trabalho e ser atrativo para o mercado, não ficar preso ao modelo de emprego apenas. Ser empregado de uma empresa é apenas uma das formas de disponibilizar seu capital intelectual para a sociedade.

Pensar no estado de fluxo é uma boa estratégia para planejar essas novas formas de trabalho. A busca por satisfação e felicidade é legítima e deve fazer parte das reflexões de carreira.

Experimentar o flow é um caminho de investigação constante. Dedicar tempo para observar e refletir sobre satisfação são passos que levarão o indivíduo a ser o protagonista de sua carreira.

Fase de Adaptação

Veja as principais contribuições dos painelistas que participaram do seminário “Novo Universo do Trabalho”, organizado pelo Valor Econômico. O CEO da Produtive, Rafael Souto, explica as mudanças necessárias com a Reforma Trabalhista:

 

A reforma trabalhista começa a ter impacto nas relações entre empregador e funcionários, mas de forma lenta. “Como é algo recente, as empresas ainda estão tateando o assunto. Não se vira a chave de uma hora para outra”, afirma André Rodrigues Cano, diretor vice-presidente executivo do Bradesco.

Segundo Cano, por enquanto, a única mudança implementada no Bradesco é a possibilidade de o funcionário dividir o período de férias, algo que antes não era permitido pela legislação. “A reforma vai modificar mais coisas, mas leva tempo. Empresas e sindicatos ainda estão entendendo o texto”, diz o executivo, que participou do seminário “Novo Universo do Trabalho”, realizado pelo Valor no dia 9.

Para Rafael Souto, sócio-fundador e CEO da Produtive Carreira e Conexões com o Mercado, o momento é de transição, o que requer mudança de modelo mental, por isso se fala em uma jornada lenta. Na opinião do especialista, parte-se de um cenário em que o profissional espera da empresa as coordenadas sobre como desenvolver sua carreira para ingressar em outro, onde cada um é protagonista da sua própria evolução profissional. “Se lembrarmos que até há pouco tempo o funcionário não podia sequer decidir sobre as suas férias, se seriam 30 dias corridos ou divididos em duas partes, imagine quando se fala que ele é o responsável pela condução da sua própria carreira. É uma mudança grande de modelo mental”, diz Souto, lembrando que também as empresas precisam se adaptar.

Ao flexibilizar as formas de contratação dos profissionais, a nova legislação abre espaço para que as pessoas atuem de diferentes formas, sendo a CLT apenas uma delas. Nesse cenário, que já uma realidade em algumas organizações, Souto menciona a possibilidade de o funcionário de uma empresa ser, ao mesmo tempo, sócio de uma startup. “As pessoas podem e querem ter o direito de trabalhar menos horas ou atuar em projetos paralelos simultaneamente. Só que as lideranças das empresas, de forma geral, ainda não têm maturidade para aceitar isso, pois estão baseadas em controle e cobrança”, afirma Souto.

A consultora Vicky Bloch reforça que a legislação cria alternativas para que se estabeleçam outras formas de contratação, por projeto ou com jornadas reduzidas, para dar alguns exemplos. As áreas de recursos humanos, na visão dela, têm a missão de levar essa discussão para o alto escalão das empresas. “É função do RH montar um plano estratégico que mostre os benefícios das contratações alternativas e levar isso para quem ocupa os cargos mais altos da organização”, diz. “As pessoas do RH pouco fazem isso, mas é o que deveriam fazer, atuar de forma estratégica”, acrescenta.

Para a consultora, diversificar as formas de contratação pode atrair mais talentos para as organizações. “Ao oferecer uma jornada de meio período, por exemplo, é possível engajar pessoas competentes que hoje estão fora das empresas porque não estão disponíveis para trabalhar em tempo integral.”

Nesse cenário, é o profissional que negocia onde e como vai trabalhar – algo que já acontece hoje, mas que ganhará intensidade no futuro. “O profissional do século XXI não é hipossuficiente, princípio que direcionou a legislação brasileira até então”, diz Souto. “O empregador vai ter que mudar”, complementa Vicky. “Será preciso entender que não é mais a empresa que detém o comando do processo. Faz-se necessário dividir a conversa, inclusive com os mais jovens, que não têm o mesmo referencial de hierarquia e carreira.”

Apesar de as mudanças serem lentas, os três participantes do evento concordam que a reforma está no caminho certo. “A nova lei coloca o Brasil mais próximo da modernidade”, diz Cano, do Bradesco.